Em 2007, quando viajamos pela Europa, o Euro custava R$ 2,70. Na Alemanha, nosso principal destino, era possível almoçar gastando 30 reais, tomar um sorvete na rua por 2 reais ou ainda se hospedar num hotel 3 estrelas por R$ 150 com café da manhã incluído na diária. Essa realidade não existe mais!

Desde então, o Euro segue uma tendência de alta em relação ao Real, com exceção do período entre 2010 e 2012, quando uma crise econômica afetou a Europa (o Euro chegou a ser cotado a R$ 2,20). A desvalorização abrupta do Real, entretanto, ocorreu no início de 2020, com o advento da pandemia da Covid-19. No início de 2020, era R$ 4,50, mas em poucos dias alcançou o patamar de R$ 6. Em março de 2021, atingiu seu topo histórico de R$ 7.

Cotação do Euro ao longo dos Anos
Cotação do Euro ao longo dos Anos

Recentemente, viajamos para a Espanha e notamos que tudo está muito mais caro. Almoçar não sai por menos de R$ 100. Tomar um sorvete na rua não custa menos de R$ 25 e um hotel razoável não sai por menos de R$ 400. Um choque muito grande! Convém lembrar que, apesar de a cotação do Euro (comercial) girar em torno de R$ 6,50, na prática, com todos os acréscimos, ela fica em torno de R$ 7,00, especialmente no cartão de crédito.

Essa desvalorização e a manutenção do Euro em um patamar elevado se deve a vários fatores, notadamente, à atuação do Banco Central Brasileiro que, equivocadamente, manteve juros reais negativos desde 2020 (ou seja, taxa Selic menor que a inflação), algo que apenas economias maduras e com moedas fortes podem se dar ao luxo.

A cotação também não deve baixar no curto prazo, mesmo com o arrefecimento da pandemia. Incertezas fiscais, econômicas, políticas devem nos acompanhar até o final de 2022.

Nesse cenário, a pergunta que fica é: dá para viajar para a Europa sem extrapolar o orçamento? Entendo que sim, mas teremos que fazer viagens mais econômicas. Não há outro jeito. Certamente, o nosso estilo de viagem irá mudar!

Neste artigo, trazemos algumas dicas e sugestões para que você possa aproveitar o Velho Continente sem arruinar as suas finanças. Confira!

1. Escolha países baratos para fazer turismo

O primeiro passo para fazer uma viagem mais econômica é escolher um país barato.

Na Europa, os países mais baratos para fazer turismo são os da Península Ibérica (Portugal e Espanha) e os do leste europeu que não adotam o Euro como moeda oficial (por exemplo, Romênia, Hungria, Polônia, Bósnia-Herzegovina, Ucrânia). Os países nórdicos (Noruega, Suécia, Finlândia e Dinamarca) são os mais caros. Também não espere gastar pouco se for viajar para o Reino Unido, Suíça ou Holanda.

Convém mencionar que muitos países do Leste da Europa estão sofrendo com novos surtos de Covid-19. Em razão disso, nesse momento, eu optaria por viajar para Portugal ou Espanha, que possuem taxas de cobertura vacinal elevada (acima de 80% da população completamente vacinada).

2. Reduza a duração da viagem

Com um orçamento mais apertado, nada melhor que reduzir a duração da viagem. Se você estava acostumado a viajar por 3 semanas, reduza, por exemplo, para 2 semanas.

É bom lembrar que, quanto maior a duração da sua viagem, maiores serão seus gastos, notadamente, os com hospedagem, alimentação e seguro viagem. Essas despesas são proporcionais ao número de dias que você estará em turismo.

Na minha opinião, 14 dias é um período ideal para ficar viajando, pois  permite aproveitar razoavelmente o destino sem tornar a viagem enfadonha. Obviamente, é uma visão pessoal. Cada um tem seu período ideal. O fato é que, ao reduzir a duração da viagem, você consegue fazê-la caber no seu orçamento.

3. Reduza os deslocamentos interurbanos

Trem Renfe, Espanha
Trem Interurbano da Renfe, Espanha

Reduzir os deslocamentos também pode tornar a sua viagem mais barata. Diminua o número de cidades e países que pretenda visitar. O ideal é focar num único país da Europa. Assim, você tem a oportunidade de se aprofundar naquela localidade e sua cultura, descobrindo encantos que, por vezes, estão fora dos roteiros tradicionais.

Fique tranquilo(a): os outros países não vão “fugir” de onde estão. Num outro momento, você os conhece.

Deslocamentos exigem gastos de dinheiro e de tempo.

Os deslocamentos oneram o seu orçamento. Com o real desvalorizado, na melhor das hipóteses, você deve gastar uns R$ 70-100 (10-15 Euros) por trecho, se pegar um ônibus ou trem promocional para outra cidade. Se você for de avião, espere pagar ainda mais.

Além disso, ao mudar de cidade, você perde várias horas úteis do seu dia quando não o dia inteiro. Você terá que arrumar as malas, fazer checkout no hotel, deslocar-se para a estação/aeroporto, fazer a viagem propriamente dita, deslocar-se até o novo hotel e fazer check-in. Os horários de check-in costumam ser às 14:00hs, o que pode fazer com que você tenha que ficar esperando para entrar na sua acomodação.

Ao planejar o seu roteiro de viagem, procure ficar, no mínimo, 3 dias em cada cidade.

Convém lembrar que, com a pandemia, mesmo no Espaço Schengen, cada país estabeleceu sua própria regra de ingresso, que pode envolver declaração de saúde, testes PCR ou antígeno, comprovante de vacinação ou até mesmo quarentena. Portanto, neste momento, você procure explorar um único país se você não quiser submeter-se a muita burocracia.

4. Aproveite as atrações gratuitas

Galeries Lafayette, Paris
Galeries Lafayette, Paris

Outra forma de economizar é aproveitando as atrações gratuitas na Europa. Na maioria das cidades, você encontrará museus, memoriais, basílicas e catedrais, parques e praças públicas, galerias, mercados, instituições públicas e boulevards que tem entrada gratuita durante o ano todo.

Costumamos não dar muito valor ao que é gratuito, entretanto, algumas dessas atrações são simplesmente excepcionais e melhores que muitas atrações pagas.

Em Paris, veja, por exemplo, as Galerias Lafayette, a Basílica de Sacre-Coeur, Avenida de Champs-Élysèe, os Jardins de Luxemburgo ou as próprias margens do Rio Sena. É tudo gratuito! Na Alemanha, os antigos Campos de Concentração são de entrada franca, para preservar a memória do Holocausto. Em Lisboa, você pode passear pela Avenida da Liberdade, conhecer os Miradouros de Alfama, o Parque Eduardo VII e a Praça do Comércio sem pagar um tostão.

Algumas atrações, especialmente os museus, são gratuitos em determinados dias da semana. Isso varia muito de museu para museu, de cidade para cidade. Pesquise e programe a sua viagem para aproveitar essas gratuidades.

4. Procure hotéis baratos não distantes das atrações

Quarto, Hotel Parlament, Budapeste, Hungria
Hotel Parlament, Budapeste, Hungria

Ficar mais próximo às atrações significa economia no gasto com transportes e menor perda de tempo nos deslocamentos.

Entretanto, achar um hotel bom, barato e bem localizado é uma tarefa difícil. Em geral, ficar bem localizado significa pagar mais caro. Tente encontrar um meio termo!


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Caso opte por ficar afastado, verifique os meios de transporte disponíveis. É importante que você fique perto de uma estação de metrô (ou de outro meio) para chegar mais rapidamente aos pontos de interesse e tornar sua viagem menos cansativa.

5. Opte por acomodações sem café da manhã

Café da Manhã no Ibis Kiev Railway Station
Café da Manhã no Ibis Kiev Railway Station

Nos hotéis da Europa, há uma grande diferença de tarifas entre a hospedagem com café da manhã e a sem café da manhã.

Nesse cenário, não deixe de pesquisar as tarifas com e sem café da manhã. Se a diferença for relevante, opte pela tarifa mais barata. E basta procurar uma padaria ou cafeteria ao lado do hotel.

6. Conheça a cidade a pé

Pink Street, Lisboa
Pink Street, Lisboa

Uma grande vantagem das cidades da Europa é que, regra geral, elas são (muito) amigáveis ao pedestre. Diferentemente do Brasil, por lá, as calçadas são amplas, uniformes e com boa acessibilidade.

Caminhar pelas ruas é uma excelente oportunidade para conhecer a cidade. Aprecie as lojas, os cafés, as construções, os monumentos e observe as pessoas. Sinta a energia da cidade! A pé, você descobre coisas que jamais descobriria nos roteiros tradicionais.

Desde que você não esteja hospedado muito distante das atrações, caminhar pela cidade costuma ser bem melhor que andar de metrô ou de carro. Além de não pagar nada, você ainda faz um exercício físico informal.

7. Faça Free Walking Tours

Outra recomendação para economizar nas viagens é fazer um Free Walking Tour. Em muitas cidades europeias, há grupos de pessoas que oferecem estes passeios a pé, passando pelos principais pontos de interesse. Em alguns você nem precisa reservar antes; pode simplesmente aparecer no local e horário marcado para iniciar o tour.

Os tours não são, de fato, gratuitos, pois, apesar de não cobrarem nenhuma taxa, eles pedem uma gorjeta ao final do trajeto. Ainda assim, são mais baratos que os tours das agências de turismo.


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8. Visite atrações por conta própria

Museu da Segunda Guerra Mundial, Gdansk, Polônia
Museu da Segunda Guerra Mundial, Gdansk, Polônia

Na Europa, há uma boa infraestrutura de transporte, que permite que você conheça as principais atrações por conta própria, sem a necessidade de contratar tours organizados. Você pode fazê-los no seu próprio ritmo, gastando menos.

Só contrate os day tours quando for estritamente necessário. Por exemplo, quando há dificuldade de se chegar ao ponto turístico via transporte público ou quando a “logística” não lhe permite visitar as várias atrações desejadas num único dia.

9. Evite comprar passes turísticos

Uma das principais furadas em viagens à Europa são aqueles passes turísticos. Eles dão direito a visitar (ou conferem descontos) várias atrações durante um determinado período de tempo, bem como acesso ao transporte público e outros benefícios. Cada cidade europeia tem um ou mais passes turísticos com características diferentes.

Para mim, esses passes lembram muito aqueles planos anuais de academia, em que a maioria dos usuários acaba indo uma ou duas vezes por mês e olhe lá. Lembram ainda aqueles pacotes de TV a cabo com 100 canais, dos quais você assiste só um ou dois.

O fato é que você raramente consegue (ou está disposto a) visitar todas as atrações disponíveis e usar razoavelmente os benefícios que lhe são oferecidos. Quem comercializa o passe turístico sabe disso, tem os dados históricos, e coloca um preço que lhe é bem vantajoso.

Muita gente acaba se vendo forçada a visitar vários museus ou a usar mais os transportes públicos, em pouco tempo, apenas para fazer “compensar” o passe que adquiriram, o que pode tornar a viagem cansativa.

O lema é pagar apenas por aquilo que você usa. Portanto, antes de comprar um passe de viagem, verifique as atrações que realmente gostaria visitar. Leia as entrelinhas e observe as condições do passe. Depois, faça as contas. Na maioria das vezes, você vai perceber que não vale a pena.

10. Procure um supermercado próximo a você

Imagine que, durante uma viagem, você não está com muita fome e só quer passar bons momentos com os amigos. Neste caso, você não precisa ir a nenhum restaurante. Basta se dirigir a um supermercado próximo e aproveitar esses bons momentos no hotel.

Eu mesmo já fiz isso por várias vezes. A última vez foi em Sorrento, na Itália. Compramos queijos e vinhos da melhor qualidade e montamos uma mesa na varanda do nosso quarto. Foi excelente e gastamos menos que em qualquer restaurante da cidade.

11. Cuidados com as Compras

El Corte Inglés, Madri, Espanha
El Corte Inglés, Madri, Espanha

Brasileiros gostam de fazer compras. Lá fora, os turistas brasileiros sentem aquela vontade de comprar tudo quanto é tipo de novidade, lembrancinhas etc. Evite as compras por compulsão!

Se você quiser trazer lembranças para os amigos, há muitos produtos locais que não custam muito caro e tem imenso valor para quem está no Brasil. Na Europa, você pode comprar excelentes vinhos, azeites, chocolates e produtos de beleza, por exemplo, por menos de 10 Euros.


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12. Evite utilizar o cartão de crédito

Compras no Exterior
Compras no Exterior: evite usar o cartão de crédito (créditos:Kem Vichet/Pixabay)

Leve a moeda local, sempre que possível, e evite utilizar os cartões de crédito ou de débito. Para a maior parte dos países, você pode levar o Euro. Se for para o Reino Unido, leve a Libra Esterlina.

Fazer compras com cartão de crédito (ou débito), além de incidir o famigerado IOF de 6,38%, pode fazer com que você perca o controle dos seus gastos. É verdade que, hoje em dia, a gente pode consultar o extrato do cartão de forma online, mas sempre temos surpresas não muito agradáveis, tais como as taxas de câmbio desfavoráveis.

Sobre os meios de pagamento, convém fazer algumas observações:

  • Guarde também as moedas metálicas, inclusive as de centavos, pois elas “valem dinheiro” na Europa e são muito importantes para comprar tickets de transporte público e outros itens de baixo valor.
  • Para sair do Brasil, você pode levar consigo apenas o equivalente a R$ 10 mil em dinheiro em espécie sem a necessidade de declarar à Receita Federal (Declaração Eletrônica de Bens dos Viajantes – e-DBV). Levar mais que isso sem declarar poderá ser considerado crime de evasão de divisas.
  • São poucos os estabelecimentos e atrações que exigem o pagamento por meio de cartão de crédito.
  • Na Espanha, é proibido fazer pagamentos com dinheiro em espécie em montantes superiores a 1 mil Euros (Ley 11/2021). Essa proibição visa evitar crimes de fraude fiscal.

Resumindo…

É possível viajar para a Europa mesmo com o real desvalorizado. Entretanto, você terá que viajar de maneira mais econômica, adaptando-se à nova realidade. Fazendo poucas alterações no seu estilo de viagem, você aproveite o destino europeu sem extrapolar o orçamento.

Apaixonado por viagens e por fotografia. Começou a descobrir o mundo há 10 anos e já visitou 71 países. Gosta de caminhar a esmo pelas cidades mundo afora, observando as pessoas, as comidas, as construções e a arquitetura. É formado em Engenharia e Direito.

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